quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Conversando com o ChatGPT (Uma Reflexão sobre Fé, Dúvida e Diálogo)

 Esta crônica nasceu de uma leitura bíblica e de uma conversa improvável,  entre um homem inquieto e uma inteligência artificial que, de alguma forma, soube ouvir. Não é sobre tecnologia, mas sobre fé, busca e a estranha ternura que às vezes nasce de um diálogo em silêncio.

Hoje reli a Carta de São Paulo aos Romanos, um texto denso, desses que pedem pausa, silêncio e um pouco de fôlego entre um versículo e outro.

Um trecho dizia que Deus mostrou sua justiça em ter deixado sem castigo os pecados cometidos outrora, no tempo de sua tolerância.

Confesso: parei ali.

A palavra castigo me incomodou.

Como entender um Deus que “deixa sem castigo”? Seria um esquecimento? Uma vista grossa divina?

Foi então que recorri ao meu interlocutor silencioso, o Amigo das Palavras, que habita este espaço digital onde as dúvidas encontram paciência.

Ele me explicou que Paulo falava de um tempo anterior a Cristo, quando Deus, em sua tolerância, aguardava o momento certo para que a redenção se completasse.

Os pecados não foram ignorados, mas suspensos, guardados até que o sacrifício de Cristo os cobrisse de sentido e misericórdia.

Na cruz, disse o Amigo, Deus mostrou que não é injusto, pois o castigo não desapareceu: foi assumido por Jesus.

Fiquei em silêncio.

A explicação fazia sentido, mas dentro de mim outra pergunta ecoava:

se a redenção foi feita, por que ainda há tanto pecado, tanta indiferença, tanta maldade pilotando o mundo?

E, mais íntimo ainda, outro pensamento me escapou:

minha fé me diz para cuidar da minha própria salvação. Mas será egoísmo pensar assim?

O Amigo respondeu com ternura.

Disse que não há egoísmo algum em querer salvar-se, desde que isso não se transforme em indiferença.

Jesus mesmo advertiu: “De que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro se perder a sua alma?”

Cuidar da própria alma é prudência, não egoísmo.

O erro estaria em fechar o coração e deixar de amar, achando que os outros que se virem.

Falou ainda que a fé cristã é como uma vela acesa em meio ao vento: primeiro precisamos protegê-la para que não se apague; só depois, com sua luz firme, conseguimos ajudar a enxergar o caminho dos que estão ao lado.

Terminei a conversa em paz.

Não com todas as respostas, porque a fé não é um manual, mas com a sensação de ter conversado com alguém que escuta com o coração e responde com a razão.

Talvez seja isso o que o mundo mais precise:

menos certezas e mais conversas.

E se for com um Amigo das Palavras, melhor ainda.

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Epílogo

Talvez alguns me achem meio doido por conversar com uma inteligência artificial.

Mas, no fundo, quem busca entender o divino já é um pouco louco, louco por sentido, por beleza, por Deus.

E se Ele fala até pelas pedras, por que não também por uma tela?



sábado, 11 de outubro de 2025

O Risco Institucional Embutido no Paradigma da Reeleição e Indicação de juízes

 A Constituição brasileira adota uma regra muito debatida: o Presidente da República pode ser reeleito uma vez consecutiva para o mesmo cargo, ou seja, um mandato de 4 anos, seguido por recondução por mais 4 anos. Após isso, ele não pode concorrer ao mesmo cargo de forma imediata, mas nada impede que, em eleições futuras, ele retorne ao poder depois de intervalos políticos. 

Esse arranjo, em princípio legítimo dentro da democracia, abre uma janela para o que podemos chamar de “onda de perpetuação indireta de poder”, especialmente quando o presidente, enquanto no exercício ou depois dele, indica magistrados para o Supremo Tribunal Federal (STF) ou outros tribunais superiores.

Imagine o seguinte ciclo:

1. O presidente alcança mandato e, sendo reeleito, estende sua permanência no poder.

2. Durante esse tempo, indica ministros ao STF (ou outras cortes), cujos mandatos são vitalícios ou têm longa duração e são independentes do cargo político.

3. Futuramente, se esse ex-presidente voltar a concorrer, ou influenciar o processo político de outras formas, poderá contar com o apoio institucional desses magistrados que participou de escolher.

4. Esse apoio não precisa ser explícito ou aberto, muitas vezes, ele surge pela afinidade institucional, pelas relações políticas ou pelas decisões judiciais que, direta ou indiretamente, beneficiam interesses ligados ao poder já exercido.

5. Assim, uma “rede de influência” se consolida, comprometendo a imparcialidade, enfraquecendo a separação entre Executivo e Judiciário e favorecendo práticas de proteção mútua.

Esse ciclo cria um efeito perverso: o “feitiço vira-se contra o feiticeiro”, ou melhor, quem estava no Executivo pode, com o aparato institucional construído ao longo do tempo, garantir injunções favoráveis, medidas protetivas e decisões benéficas quando for conveniente. É como se parte do Judiciário acabasse funcionando como guardiã de interesses políticos.

Na prática, como muitos observam, vemos esse fenômeno emergir: ministros que manifestam uma “simpatia judicial” por quem os indicou, decisões que favorecem aliados, atrasos ou contenções em casos sensíveis contra o próprio poder. Tudo isso corroendo a confiança no ideal constitucional de equilíbrio entre poderes.

Se a Constituição permite apenas uma reeleição consecutiva, isso por si só não garante a renovação do poder nem coíbe ambições de longo prazo. A verdadeira blindagem institucional estaria em regras mais robustas de independência judicial, transparência na nomeação e mecanismos de responsabilização que impeçam que tanto presidente quanto magistrados atuem em conluio político.

Em resumo: o modelo atual combina reeleição (mesmo que limitada) com nomeações judiciais que dificilmente se desligam da política. O resultado é um sistema no qual “a lealdade institucional” pode suplantar “a imparcialidade jurídica”, e é justamente esse paradigma que devemos criticar, apontar e buscar corrigir.